Aperfeiçoamento da Prática em Coordenação do Cuidado a partir da Atenção Primária à Saúde – APS

Módulo VIII – Saúde Mental na APS

Disciplina 18

Saúde Mental na APS II

Vamos continuar nossa jornada pela Saúde Mental na Atenção Primária à Saúde (APS) II.

A partir dos conceitos da disciplina anterior, ampliaremos nosso olhar sobre o cuidado em saúde mental, conhecendo tecnologias de cuidado e formas de articulação com a Rede de Atenção à Saúde (RAS) para identificar precocemente situações de sofrimento, reconhecer riscos e construir caminhos de cuidado compartilhados no território.

Conheça, a seguir, os objetivos de aprendizagem desta disciplina.

Objetivos de Aprendizagem

Ao final de seus estudos, espera-se que você seja capaz de: 

Clique nas setas para navegar.

Identificar os principais dispositivos e fluxos da RAPS, compreendendo critérios de acesso e articulação entre os pontos de atenção.

Reconhecer a importância do trabalho em equipe, do cuidado compartilhado e da corresponsabilização entre APS, RAPS e usuários dos SUS.

Identificar as tecnologias próprias do cuidado em saúde mental na APS e sua aplicação no cotidiano das equipes.

Identificar necessidades prioritárias e a estratificação de risco em saúde mental e APS.

Compreender princípios e estratégias para avaliação, manejo de crises e acompanhamento de condições prioritárias em saúde mental na APS.

Analisar práticas e experiências de cuidado em saúde mental na APS, considerando o contexto social, cultural e territorial dos usuários.

Mais do que encaminhar, a APS coordena, acompanha e compartilha o cuidado

Nesta disciplina, ampliaremos a discussão sobre o cuidado em saúde mental na APS, avançando para situações que demandam maior articulação e organização do cuidado em rede. Exploraremos a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), o papel da APS como integrante dessa rede e sua articulação com os diferentes pontos de atenção e setores envolvidos no cuidado.

É importante que você, profissional, reconheça sinais, fatores de risco e de proteção e diferentes níveis de risco em saúde mental, qualificando o manejo das situações mais frequentes e a articulação do cuidado em rede para garantir a continuidade e a integralidade da atenção no território.

Vamos começar!

RAPS e Seus Nós Entre Nós: Composição, Fluxos, Corresponsabilização e Cuidado Compartilhado no Território

Quando falamos das Redes de Atenção à Saúde, corremos o risco de centralizá-las em apenas um serviço, tendo os demais como complementares ou subordinados a um centro. Você já parou para pensar que, antes da Lei 10.216/2001 (Brasil, 2001) e da criação dos serviços substitutivos aos hospitais psiquiátricos, as instituições psiquiátricas eram os centros de cuidado exclusivos de saúde mental?

Embora esse modelo tenha sido amplamente questionado e transformado pela Reforma Psiquiátrica, sabemos que, ainda hoje, existem arranjos que têm o hospital psiquiátrico como o centro do cuidado, apesar de estes não serem preconizados como serviços da RAPS. 

Essa reflexão nos conduz a uma pergunta central para esta temática: se a rede não deve ter um centro fixo, então o que a sustenta? É o que descobriremos.

A APS assume um papel estratégico e diferente de um serviço especializado. Ela não se organiza em torno de um tipo específico de agravo, mas em torno das pessoas, das famílias e dos territórios. Ela é, por natureza, o ponto de atenção que confere porosidade à rede, conectando serviços, fluxos e políticas, e sustentando o cuidado longitudinal.

Reflita…

Ao pensar sobre sua prática na APS, como se dá a comunicação com os serviços de saúde mental do seu território? Ela acontece por guias de encaminhamentos e filas de espera ou há espaços de diálogo, cuidado compartilhado e corresponsabilização? E na relação com esses serviços e estratégias você consegue compreender o papel de cada um no cuidado às pessoas em sofrimento mental?

Pensando nisso, vamos entender como ocorre a organização da RAS e da RAPS, seus fluxos assistenciais, critérios de acesso, comunicação entre os pontos da rede e o papel da APS como coordenadora do cuidado em saúde mental. A partir dessa discussão, convidamos você a olhar para a rede não como um conjunto de serviços isolados, mas como uma trama viva de relações, responsabilidades e possibilidades de cuidado construídas no território.

A rede que se constrói no território

Clique nos ícones abaixo e entenda como a RAPS se estrutura:

Rede de Atenção Psicossocial (RAPS)

Ilustração
APS
APS
0 de 7 componentes explorados
Saúde mental no território
Cuidado compartilhado
Articulação intersetorial

Fonte: Elaborado pelos autores, com apoio de ferramenta de inteligência artificial generativa (OpenAI – ChatGPT/DALL·E), 2026.

A Rede de Atenção à Saúde (RAS) organiza-se como um conjunto de serviços, ações e estratégias articuladas para garantir cuidado integral, contínuo e equânime à população. No interior da RAS, a RAPS foi instituída para responder às necessidades de cuidado em saúde mental, estruturando dispositivos que operam a partir da lógica do território, do cuidado em liberdade e da corresponsabilização entre serviços.

É fundamental destacarmos que a RAPS não é uma rede paralela, nem um conjunto de serviços especializados e isolados. Ela se constitui e se sustenta na articulação entre diferentes pontos de atenção, políticas públicas e atores sociais. Nesse arranjo, a APS, como integrante desta rede, ocupa posição estratégica, não como centro hierárquico da rede, mas como ordenadora e coordenadora do cuidado, capaz de garantir continuidade, vínculo e comunicação entre os diferentes componentes.

A organização do cuidado exige análise do contexto, estratificação de risco, avaliação da complexidade e, sobretudo, definição compartilhada de responsabilidades. Em casos complexos, o cuidado mais efetivo ocorre quando os componentes e os pontos de atenção da RAPS estão articulados e compartilhando ações alinhadas de acordo com as necessidades de cada situação. 

Mas, afinal, quais são os dispositivos da RAPS e quais são seus papéis e responsabilidades na lógica do cuidado compartilhado?

A RAPS é destinada ao cuidado das pessoas em sofrimento psíquico ou transtorno mental e com necessidades decorrentes do uso de álcool e outras drogas no âmbito do SUS. Instituída pela Portaria nº 3.088/2011 (Brasil, 2011), a RAPS expressa uma mudança profunda na forma de compreender o sofrimento mental e organizar o cuidado no SUS. Suas diretrizes afirmam o cuidado em liberdade, o combate ao estigma, a equidade, a atenção territorial e a construção do Projeto Terapêutico Singular (PTS).

Clique nas setas e veja como as diretrizes se traduzem na prática cotidiana dos serviços:

I – Respeito aos direitos humanos, garantindo a autonomia e a liberdade das pessoas.

Na prática: Cuidar sem isolar, sem tutelar e sem substituir a vontade da pessoa. O cuidado acontece com o usuário, não sobre ele.

II – Promoção da equidade, reconhecendo os determinantes sociais da saúde.

Na prática: O sofrimento é atravessado por condições sociais, econômicas, culturais e territoriais. Cuidar é também enfrentar e reconhecer as desigualdades e singularidades, ajustar as ofertas de cuidado às necessidades singulares e construir respostas que ampliem o acesso, reduzam iniquidades e criem oportunidades reais. 

III – Combate a estigmas e preconceitos.

Na prática: Romper com rótulos, diagnósticos como identidade e práticas excludentes. O usuário é mais do que o transtorno. É uma oportunidade para conhecer a história de vida dos usuários e os itinerários terapêuticos percorridos até o momento.

IV – Garantia do acesso e da qualidade dos serviços, ofertando cuidado integral e assistência multiprofissional, sob a lógica interdisciplinar.

Na prática: Nenhum serviço e profissional cuida sozinho. O cuidado é construído em equipe, em rede e de forma interdisciplinar e interprofissional.

V – Atenção humanizada e centrada nas necessidades das pessoas.

Na prática: Escuta qualificada, vínculo, corresponsabilização e respeito às singularidades no processo de construção do plano terapêutico singular.

VI – Diversificação das estratégias de cuidado.

Na prática: Grupos, cuidado no território, práticas comunitárias, cuidado compartilhado: não apenas consultas e medicação.

VII – Desenvolvimento de atividades no território, que favoreçam a inclusão social à promoção de autonomia e o exercício da cidadania.

Na prática: O cuidado acontece onde a vida acontece: na comunidade, no trabalho, na convivência.

VIII – Desenvolvimento de estratégias de redução de danos.

Na prática: O foco do cuidado desloca-se do controle do comportamento para a proteção da vida, da saúde e dos direitos, buscando minimizar riscos, agravos e sofrimentos associados ao uso de substância psicoativa, sem julgamento moral ou punição. Trata-se de uma abordagem centrada na pessoa, que respeita sua autonomia, seu tempo e suas possibilidades reais de mudança. O cuidado é ofertado mesmo quando a pessoa mantém o uso, evitando exclusões e rompimentos de vínculo.

IX – Ênfase em serviços de base territorial e comunitária, com participação e controle social dos usuários e de seus familiares.

Na prática: O cuidado se fortalece no território e em liberdade, com usuários e familiares participando democraticamente das decisões e da avaliação dos serviços.

X – Organização dos serviços em rede regionalizada, com estabelecimento de ações intersetoriais para garantir a integralidade do cuidado.

Na prática: Saúde, assistência social, educação, justiça e trabalho constroem cuidado juntos. As reuniões de rede social são espaços ricos para os nós da rede.

XI – Promoção de estratégias de educação permanente (EPS).

Na prática: reorganização dos processos de trabalho para favorecer as estratégias de EPS, para refletir sobre o trabalho, aprender com o território e transformar práticas.

XII – Desenvolvimento da lógica do cuidado para pessoas orientado pela construção do PTS.

Na prática: O plano de cuidado nasce do encontro entre equipe, usuário e rede: não de protocolos isolados.

A RAPS é composta por diferentes dispositivos que, de forma articulada, buscam responder às necessidades de cuidado em saúde mental ao longo do território e do ciclo de vida (Guimarães et al., 2025), como vimos anteriormente. 

Veja os componentes e os pontos de atenção que constituem essa rede:

  • Atenção Primária à Saúde
  • Reabilitação psicossocial
  • Atenção residencial de caráter transitório
  • Estratégias de desinstitucionalização
  • Atenção psicossocial especializada
  • Atenção de urgência e emergência
  • Atenção hospitalar

Mas atenção! Apesar de tais serviços, equipes e componentes se articulares e serem previstos originalmente na Portaria nº 3.088/2011, a implantação dos tipos de serviços e equipes dos pontos de atenção variam conforme o território.

A criação dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), nas diferentes modalidades, representou um marco importante, porque constituíram-se como serviços substitutivos aos hospitais psiquiátricos e transformaram a lógica do cuidado, orientando-o para o território, a convivência, o cuidado em liberdade e a articulação em rede.

Qual é o papel do CAPS na RAPS?

Os CAPS são serviços estratégicos da RAPS, destinados ao cuidado de pessoas com transtornos mentais graves e persistentes e/ou com necessidades decorrentes do uso de álcool e outras drogas. Seu objetivo é oferecer cuidado especializado em liberdade, evitando internações desnecessárias e promovendo a inclusão social, a autonomia e a reabilitação psicossocial (Brasil, 2011; Brasil, 2017). Na prática, os CAPS desenvolvem diferentes modalidades de cuidado.

É importante destacar que o CAPS não substitui a APS. O cuidado é construído de forma compartilhada, mantendo a APS como coordenadora do cuidado e referência longitudinal do usuário, enquanto o CAPS oferece suporte especializado conforme a necessidade clínica e psicossocial.

Conheça melhor cada modalidade do CAPS clicando nos números a seguir:

1. CAPS I: atende pessoas com transtornos mentais graves e persistentes e também com necessidades decorrentes do uso de álcool e outras drogas de todas as faixas etárias; indicado para municípios com população acima de vinte mil habitantes;

2. CAPS II: atende pessoas com transtornos mentais graves e persistentes, podendo também atender pessoas com necessidades decorrentes do uso de álcool e outras drogas, conforme a organização da rede de saúde local, indicado para Municípios com população acima de setenta mil habitantes;

3. CAPS III: atende pessoas com transtornos mentais graves e persistentes. Proporciona serviços de atenção contínua, com funcionamento vinte e quatro horas, incluindo feriados e finais de semana, ofertando retaguarda clínica e acolhimento noturno a outros serviços de saúde mental, inclusive CAPS Ad, indicado para Municípios ou regiões com população acima de duzentos mil habitantes;

4. CAPS AD: atende adultos ou crianças e adolescentes, considerando as normativas do Estatuto da Criança e do Adolescente, com necessidades decorrentes do uso de álcool e outras drogas. Serviço de saúde mental aberto e de caráter comunitário, indicado para Municípios ou regiões com população acima de setenta mil habitantes;

5. CAPS AD III: atende adultos ou crianças e adolescentes, considerando as normativas do Estatuto da Criança e do Adolescente, com necessidades de cuidados clínicos contínuos. Serviço com no máximo doze leitos para observação e monitoramento, de funcionamento 24 horas, incluindo feriados e finais de semana; indicado para municípios ou regiões com população acima de duzentos mil habitantes; e

6. CAPS i: atende crianças e adolescentes com transtornos mentais graves e persistentes e os que fazem uso de álcool e outras drogas. Serviço aberto e de caráter comunitário indicado para municípios ou regiões com população acima de cento e cinquenta mil habitantes.

Atenção:

Embora todos os CAPS compartilhem a mesma lógica de cuidado comunitário, territorial e em liberdade, cada modalidade possui população de referência, capacidade assistencial e organização específicas. 

Avançando para outra dimensão: a desinstitucionalização para além do componente da RAPS

A desinstitucionalização não representa apenas o fechamento de uma instituição, nem a ação isolada referente à saída de um usuário de algum serviço de saúde, mas um processo complexo de desconstrução da lógica manicomial, do estigma relativo à loucura, com o foco na cidadania e inclusão social (Rotelli, Leonardis, 2001). Apesar da desinstitucionalização buscar a reinserção social de pessoas em instituições segregadoras, como hospitais psiquiátricos e de custódia, ela não se limita a essas situações. 

Veja outras formas de aplicação:

  • Acompanhar usuários e oferecer suporte no território após crises e internações.
  • Identificar pessoas em sofrimento nos territórios e priorizar intervenções psicossociais e comunitárias, acionando a rede de proteção e outros dispositivos territoriais.
  • Priorizar intervenções domiciliares e territoriais, rede de proteção e circulação social.
  • Evitar internações desnecessárias, articulando recursos comunitários, coordenando o cuidado e ordenando a rede psicossocial.
  • Auxiliar no acompanhamento de pessoas que residem em Serviços Residenciais Terapêuticos (SRT), em conjunto com os CAPS.

Na prática!

Quais caminhos podem evitar o isolamento e internação? Qual a responsabilidade da APS em relação ao processo de desinstitucionalização?

Acompanharemos agora um exemplo prático que ajudará na reflexão desses questionamentos. Confira-o clicando no ícone abaixo:

Caso 1 – Desinstitucionalização

Neste caso, a crise deixa de ser tratada como um evento isolado e passa a ser compreendida como parte de um processo de cuidado contínuo no território. Ao longo do acompanhamento, observa-se que a participação em espaços de convivência e produção cultural contribui para a redução do isolamento, o fortalecimento de vínculos e a ressignificação da identidade do usuário. Ele deixa de ser reconhecido apenas pelo sofrimento e passa a ocupar outros lugares sociais no território. As equipes da Estratégia Saúde da Família (ESF) e do CAPS observam a necessidade de manter espaços contínuos de discussão sobre o caso, já que nos períodos em que os serviços se distanciam, o acompanhamento enfrenta desafios e as ações se tornam descoordenadas, implicando em agravos à saúde mental do usuário.

Reflita…

O que mudaria nesse caso se a APS apenas realizasse o encaminhamento para o CAPS? 

O que diferencia as práticas dos CAPS em relação aos hospitais psiquiátricos e aos ambulatórios tradicionais de saúde mental? 

Como você percebe a sua própria prática profissional no contexto da Reforma Psiquiátrica brasileira e da RAPS de seu município? Em que momentos ela se aproxima dos seus princípios? 

Em quais ainda reproduz uma lógica centrada em encaminhamentos a serviços especializados e internações hospitalares?

Avançaremos agora para a compreensão da Saúde Mental em contextos e populações específicas na APS

Saúde Mental Infantojuvenil:

É comum que mães, pais, avós ou outros cuidadores procurem a APS, levando crianças e adolescentes com queixas relacionadas a comportamentos considerados problemático, como por exemplos: “não obedece em casa e na escola”; “é muito agitado”, “não fala”, “age de forma inadequada”. Demandas semelhantes também chegam por meio das escolas, muitas vezes acompanhadas de pedidos de laudos, encaminhamentos ou uso de medicação.

Historicamente, esse tipo de situação era encaminhada de forma quase automática para especialidades médicas, reforçando processos de medicalização e fragilizando abordagens psicossociais e territoriais (Brasil, 2013). A APS ocupa posição estratégica para romper com essa lógica patologizante, ampliando a leitura das demandas e compreendendo o sofrimento para além do comportamento, considerando o território, os vínculos e as condições de vida (Brasil, 2011; Brasil, 2013).

A importância de olhar com atenção

A infância e a adolescência são períodos fundamentais para o desenvolvimento emocional, social e cognitivo do ser humano. Reconhecer que esses períodos do desenvolvimento são diversos e atravessados por dimensões sociais, culturais, territoriais e que, portanto, não se reduzem a uma concepção única, constitui estratégia fundamental para o fortalecimento do cuidado psicossocial em saúde mental. 

O Ministério da Saúde, em consonância com a Organização Mundial da Saúde, define adolescência como o período entre 10 e 19 anos, e juventude entre 15 e 24 anos, adotando o termo “pessoas jovens” para abarcar essa faixa etária ampliada (Brasil, 2010).  Estima-se que, entre: 

0 % – 0 %
de crianças e adolescentes

apresentem problemas de saúde mental, sendo que…

0 %
dos transtornos têm início antes dos 14 anos

…com grande parte dos casos não identificados nem tratados (UNICEF, 2022). No Brasil, a prevalência gira em torno de 10% a 12,7%, com destaque para ansiedade, problemas de comportamento e depressão (Brasil, 2013).

A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS, 2021) destaca ainda que:

as condições de saúde mental representam aproximadamente 16% da carga global de doenças entre adolescentes;

a depressão é uma das principais causas de adoecimento nessa faixa etária;

o suicídio está entre as principais causas de morte entre adolescentes de 15 a 19 anos.

Na prática!

Na APS, o cuidado deve ser livre de preconceitos, garantindo escuta, sigilo, respeito à autonomia progressiva e articulação com a família e a rede de proteção, conforme preconiza o Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA (Brasil, 1990). Crianças e adolescentes apresentam necessidades específicas de cuidado em saúde mental, exigindo avaliação desenvolvimental, atenção às redes familiares e escolares e respostas centradas na proteção, dos direitos e na participação ativa deste público. Acompanhe o caso abaixo clicando no ícone:

Caso 2: saúde mental na infância

Reflita…

De que maneira a demanda inicial por um “laudo” poderia ter levado a uma resposta medicalizante ou excludente se não houvesse escuta ampliada? Como a APS pode atuar para proteger a criança de processos de rotulação precoce e, ao mesmo tempo, responder às necessidades da escola e da família?

Atenção:

Em toda situação de suspeita ou confirmação de violência contra crianças e adolescentes, a notificação é obrigatória (ECA, art. 13 – Brasil, 1990).

Saúde mental em contextos e populações específicas: Territórios indígenas, Quilombolas e Contextos Prisionais

Quando pensamos em saúde mental na APS, é fundamental lembrar que o sofrimento psíquico não se apresenta da mesma forma para todas as populações. Viver em contextos indígenas, quilombolas ou com pessoas em privação de liberdade pode apresentar vulnerabilidades históricas, violências estruturais, racismo institucional, desigualdades territoriais, perdas culturais e violações de direitos que atravessam diretamente o corpo, a vida social e o sentido de pertencimento. Esses elementos não são periféricos: são componentes centrais na produção de sofrimento e nas possibilidades de cuidado. Apesar disso, também é importante destacar que nesses contextos não necessariamente o foco do trabalho da APS é apenas nessas vulnerabilidades apontadas, já que também são grupos que se expressam em suas potencialidades e formas criativas de ser para além das opressões vividas.

Reflita…

Como acolher sofrimento quando a noção de doença não se traduz em categorias biomédicas e sim em desequilíbrios espirituais, rupturas comunitárias ou conflitos cosmológicos? Em muitos casos, “tratar” passa por reconstruir vínculos, fortalecer rituais, apoiar lideranças e reconhecer memórias coletivas.

As políticas brasileiras reconhecem que o CUIDADO EM SAÚDE MENTAL ÀS POPULAÇÕES INDÍGENAS só é legítimo quando considera seus sistemas tradicionais de cura, práticas coletivas, espiritualidade, vínculos de parentesco, rituais e cosmologias. A noção de corpo, doença, sofrimento e cura, para os povos originários, é inseparável do território, das ancestralidades, das relações com os seres da floresta, com o tempo e com os ciclos da vida (Brasil, 2014).

Já as COMUNIDADES QUILOMBOLAS carregam marcas históricas de expropriação, pobreza, isolamento geográfico, racismo estrutural, violência institucional e negação de direitos. Os quilombos são territórios de memória, resistência, espiritualidade e reconstrução social. Quando analisamos a saúde mental nesses contextos, o sofrimento mental está intimamente ligado: às lutas por território; à insegurança alimentar; à ausência de saneamento, transporte e serviços públicos; à discriminação racial; ao apagamento cultural; ao racismo religioso e às violências contra religiões de matrizes africanas. Com esses fatores, resgatamos novamente a importância de afirmar e incorporar as práticas antirracistas preconizadas na Portaria GM/MS n° 2.198/2023 (Brasil, 2023). Mais do que diagnósticos, o cuidado passa por: fortalecer a identidade quilombola, reconhecer tradições e bens culturais, apoiar coletivos, lideranças e associações, escutar histórias de vida e experiências de discriminação, criar espaços protetivos de convivência, articular políticas públicas e proteção social.

Já a SAÚDE MENTAL EM CONTEXTOS PRISIONAIS E MEDIDAS RESTRITIVAS é marcada por elos familiares rompidos, superlotação dos espaços de reclusão, violência, falta de amparo institucional, racismo, exclusão social, desemprego, ausência de políticas públicas e estigma. A prevalência de transtornos mentais no contexto prisional é maior que na população em geral, e em relação às penitenciárias comuns, os Transtornos Mentais Comuns foram os mais prevalentes nessa população, mesmo em relação às doenças infectocontagiosas (AUDI et al., 2016). Também encontramos que os transtornos de estresse pós-traumático são prevalentes em mulheres encarceradas, levando em conta inclusive traumas vividos pelo encarceramento e contextos de violência institucional (Quitete et al., 2008). O campo dos transtornos relacionados ao uso de álcool e outras drogas também são frequentes.

Ainda sobre a saúde mental em contextos prisionais e medidas restritivas, os cuidados nesse contexto exigem uma abordagem psicossocial ética e articulada, baseada no sigilo, no acolhimento livre de preconceitos, na integração entre APS, equipes de saúde prisional, CAPS e rede socioassistencial, bem como no acompanhamento no território após a saída do sistema prisional. 

As Equipes de Atenção Primária Prisional (eAPP) têm papel central nesse cuidado, atuando de forma multiprofissional nas unidades prisionais e garantindo atenção integral às pessoas privadas de liberdade.

Estratificação de Risco, Avaliação e Manejo das Condições em Saúde Mental na APS

Como vimos, a organização do cuidado em saúde mental no âmbito do SUS exige uma abordagem que ultrapasse o diagnóstico isolado e considere a complexidade das situações vividas pelas pessoas e suas relações com o contexto social, familiar e territorial. 

O acolhimento na APS configura-se como momento estratégico para a construção de vínculo, ampliação do acesso de usuários e realização de intervenções precoces, especialmente diante de processos de agudização do sofrimento psíquico (OMS, 2018). 

Nesse contexto, a estratificação de risco em saúde mental apresenta-se como uma ferramenta fundamental para subsidiar a tomada de decisão clínica e organizacional na APS.

Mas, o que é a ESTRATIFICAÇÃO DE RISCO EM SAÚDE MENTAL NA APS?

A estratificação de risco é uma estratégia utilizada para identificar necessidades diferenciadas de cuidado entre pessoas que podem apresentar condições semelhantes, mas demandar respostas distintas conforme a intensidade do sofrimento, a urgência da intervenção, o impacto funcional, o escopo dos serviços requeridos e a capacidade de autocuidado. Na APS, essa ferramenta apoia a tomada de decisão clínica e organizacional, contribuindo para a alocação adequada de recursos e para a organização dos fluxos assistenciais na rede (Brasil, 2013). 

Na APS, essa estratégia deve ser compreendida como um processo contínuo, integrado ao acompanhamento longitudinal, e não como uma avaliação pontual ou meramente classificatória. Mudanças no contexto de vida, no vínculo terapêutico, na presença de crises, bem como no fortalecimento ou fragilização das redes de apoio, podem alterar o grau de risco ao longo do tempo, exigindo reavaliações periódicas e compartilhadas pela equipe (Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein; Brasil, 2021).

Clique nas abas abaixo para explorar os elementos centrais da estratificação de risco e seus principais objetivos:

Destacam-se:

  • intensidade e persistência dos sintomas e do sofrimento mental;
  • prejuízo funcional e impacto nas atividades da vida cotidiana;
  • presença de sinais de alerta ou risco iminente;
  • condições sociais adversas e fragilização de vínculos familiares e comunitários;
  • acesso prévio aos serviços de saúde e vínculo com a equipe da APS.

Esses elementos devem ser compreendidos no contexto da vida da pessoa e do território onde ela está inserida, e não de forma isolada.

Conforme documentos do SUS e estudos/experiências recentes, a classificação e estratificação de risco em saúde mental tem como objetivos principais (Nakamura, Barbosa e Alencar, 2025):

  • Avaliar o usuário no momento de sua chegada ao serviço, de forma humanizada e acolhedora;
  • Identificar situações que demandam intervenção imediata, prioritária ou programada;
  • Organizar o acesso aos serviços, garantindo que o cuidado seja ofertado conforme a gravidade e a vulnerabilidade identificadas;
  • Reduzir riscos e agravos, por meio da identificação precoce de situações de crise;
  • Promover transparência e comunicação, informando usuários e familiares sobre fluxos, tempos de espera e encaminhamentos;
  • Subsidiar a articulação em rede, orientando o cuidado compartilhado e os encaminhamentos necessários.

Destacam-se:

  • intensidade e persistência dos sintomas e do sofrimento mental;
  • prejuízo funcional e impacto nas atividades da vida cotidiana;
  • presença de sinais de alerta ou risco iminente;
  • condições sociais adversas e fragilização de vínculos familiares e comunitários;
  • acesso prévio aos serviços de saúde e vínculo com a equipe da APS.

Esses elementos devem ser compreendidos no contexto da vida da pessoa e do território onde ela está inserida, e não de forma isolada.

Conforme documentos do SUS e estudos/experiências recentes, a classificação e estratificação de risco em saúde mental tem como objetivos principais (Nakamura, Barbosa e Alencar, 2025):

  • Avaliar o usuário no momento de sua chegada ao serviço, de forma humanizada e acolhedora;
  • Identificar situações que demandam intervenção imediata, prioritária ou programada;
  • Organizar o acesso aos serviços, garantindo que o cuidado seja ofertado conforme a gravidade e a vulnerabilidade identificadas;
  • Reduzir riscos e agravos, por meio da identificação precoce de situações de crise;
  • Promover transparência e comunicação, informando usuários e familiares sobre fluxos, tempos de espera e encaminhamentos;
  • Subsidiar a articulação em rede, orientando o cuidado compartilhado e os encaminhamentos necessários.

Diferentemente de uma lógica impessoal baseada exclusivamente na ordem de chegada, a estratificação de risco prioriza a necessidade de cuidado. Por isso, requer comunicação direta, acessível e efetiva com usuários e familiares, explicando que a priorização se dá pela gravidade da situação e não por privilégios, fortalecendo a transparência e a corresponsabilização no cuidado. É importante ressaltar que, quando não bem conduzida, a estratificação pode levar à hipertrofia do serviço, especialmente se todas as demandas forem absorvidas sem critérios bem definidos. Por isso, deve estar articulada à definição de escopo da APS e ao funcionamento da RAPS.

Clique nos ícones abaixo e conheça ferramentas teórico-práticas que podem apoiar a organização do cuidado e a análise dos processos de trabalho na APS, contribuindo para a estratificação de risco e a qualificação das respostas em saúde mental:

Fluxograma analisador

FLUXOGRAMA ANALISADOR: Instrumento que permite desenhar e analisar os processos de trabalho, identificando entradas, etapas, saídas e resultados do cuidado. É útil para refletir coletivamente sobre: como as demandas em saúde mental chegam à UBS; onde ocorrem encaminhamentos desnecessários; como melhorar o fluxo entre APS, CAPS e outros serviços. (Merhy, 1998).

Oficinas de discussão

OFICINAS DE DISCUSSÃO DE CASOS E CONSTRUÇÃO COLETIVA DE AÇÕES: Espaços coletivos de análise, planejamento, e construção compartilhada de PTS. Pode envolver a equipe de referência da eSF, a eMulti e, quando necessário, profissionais do CAPS ou de outros serviços da rede. Essas discussões favorecem: visão ampliada do caso (clínica, psicossocial e territorial); tomada de decisão compartilhada; corresponsabilização entre equipes. (Brasil, 2013; Campos e Domitti, 2007).

Elaboração de protocolos

ELABORAÇÃO DE PROTOCOLOS LOCAIS E ORGANIZAÇÃO DE FLUXOS: Protocolos construídos sob a ótica da intervenção multiprofissional, que: orientam o acolhimento e a estratificação de risco; definem prioridades e fluxos assistenciais; fortalecem a atuação de toda a equipe, não apenas de médicos; qualificam o uso de medicamentos e intervenções psicossociais. Esses protocolos devem ser flexíveis, revisados periodicamente e ajustados à realidade local. (Brasil, 2004; Brasil, 2011)

Importante lembrar:

Essas ferramentas só produzem efeito quando usadas como apoio ao cuidado e não como mecanismos de controle, burocratização ou exclusão do usuário. Elas fortalecem a clínica ampliada, o trabalho em equipe e a coordenação do cuidado pela APS.

Reconhecimento de sinais de alerta, fatores de risco e de proteção

A avaliação em saúde mental deve identificar não apenas riscos, mas também fatores de proteção, como vínculos familiares, redes comunitárias, acesso a trabalho, escola, grupos sociais e serviços de saúde. Esses elementos fortalecem as respostas terapêuticas, reduzem vulnerabilidades e orientam o planejamento do cuidado, promovendo autonomia e cidadania.

A APS tem papel fundamental no reconhecimento do sofrimento, sinais de agravamento e situações de risco, por meio do acompanhamento longitudinal, da busca ativa, da vigilância do território – o que contribui para reduzir crises, internações e rupturas sociais. Neste cenário, os profissionais de saúde e principalmente os ACS (Agente Comunitário de Saúde) e TACS (Técnico em Agente Comunitário de Saúde) com apoio da equipe de referência, podem desenvolver as boas práticas na APS como estratégias potentes de cuidado psicossocial.

Fatores de risco

Vejamos exemplos dos principais fatores de risco e de proteção em saúde mental, conforme documentos do Ministério da Saúde e da OPAS. Esses fatores não determinam o adoecimento, mas aumentam ou reduzem vulnerabilidades e devem orientar a estratificação de risco e o planejamento do cuidado na APS. 

Clique nas abas abaixo e explore os FATORES DE RISCO:

INDIVIDUAIS

Exemplos: 

  • Transtornos mentais prévios
  • uso problemático de álcool e outras drogas 
  • condições e doenças crônicas 
PSICOSSOCIAIS

Exemplos: 

  • Violência, 
  • desemprego, 
  • isolamento social, 
  • luto recente
FAMILIARES

Exemplos: 

  • Conflitos intensos, 
  • negligência, 
  • ausência de suporte
TERRITORIAIS

Exemplos: 

  • Exclusão social, 
  • pobreza, 
  • acesso precário a serviços
HISTÓRICOS

Exemplos: 

  • Tentativas de suicídio, 
  • internações psiquiátricas, 
  • rupturas frequentes de cuidado
INSTITUCIONAIS

Exemplos: 

  • Barreiras de acesso, 
  • estigma, 
  • descontinuidade do cuidado

Fatores de proteção

Da mesma forma, identificar e fortalecer FATORES DE PROTEÇÃO é tão importante quanto reconhecer riscos, pois esses elementos ampliam a capacidade de enfrentamento, reduzem a probabilidade de agravamento do sofrimento mental e sustentam o cuidado no território. 

Clique nas abas abaixo e conheça-os melhor:

VÍNCULOS FAMILIARES

Exemplos práticos: 

  • Relações de apoio, escuta e cuidado
REDE SOCIAL

Exemplos práticos: 

  • Amigos, 
  • vizinhos, 
  • grupos comunitários
VÍNCULO COM A APS

Exemplos práticos: 

  • Acompanhamento regular, 
  • confiança na equipe
INSERÇÃO SOCIAL

Exemplos práticos: 

  • Trabalho, 
  • escola, 
  • atividades culturais ou comunitárias
ACESSO A DIREITOS

Exemplos práticos: 

  • Benefícios sociais, 
  • moradia, 
  • renda
ESTRATÉGIAS DE ENFRENTAMENTO

Exemplos práticos: 

  • Capacidade de pedir ajuda, 
  • reconhecer limites
CUIDADO COMPARTILHADO

Exemplos práticos: 

  • Articulação com CAPS, eMulti, rede intersetorial
PROJETO DE VIDA

Exemplos práticos: 

  • Expectativas, desejos, planos, sentido atribuído à vida

Embora os exemplos práticos de fatores de proteção tenham sido citados, é fundamental que a equipe avalie a qualidade de cada um dos fatores de acordo com a realidade de cada usuário, tendo em vista que, a depender das condições em que se configuram, podem assumir caráter de risco. Por exemplo, existem condições de trabalho que, por si só, constituem-se de fatores de risco em razão de vínculos empregatícios instáveis ou precários; relações familiares que são produtoras de violência, também são outro exemplo.

Um desafio frequente nos territórios é a ausência de instrumentos pactuados de estratificação de risco, o que pode resultar em respostas fragmentadas, encaminhamentos automáticos ou sobrecarga de serviços especializados. Por isso, recomenda-se que a equipe da APS, junto à RAPS, construa coletivamente critérios de estratificação, adaptados à realidade local, considerando o perfil epidemiológico, os recursos disponíveis e os fluxos existentes no território.

Os Cadernos de Atenção Básica nº 28 e nº 34 e o MI-mhGAP oferecem referenciais importantes para essa construção, ao proporem a avaliação do risco a partir da gravidade do sofrimento, do impacto funcional, da presença de sinais de alerta e das condições psicossociais associadas (Brasil, 2013; OPAS, 2018). Veja abaixo um modelo orientador de estratificação de risco em saúde mental, inspirado nesses documentos. Sua aplicação deve ser adaptada às diferentes modalidades de equipes da Atenção Primária à Saúde e às características do território.

Estratificação de risco e vulnerabilidade em Saúde Mental na APS

USUÁRIO CHEGA À APS em seus diferentes arranjos assistenciais (Demanda espontânea, encaminhamento ou busca ativa)
AVALIAÇÃO INICIAL
  • Escuta ativa
  • Observação clínica
  • Anamnese ampliada
  • Avaliação biopsicossocial
  • Identificação de fatores de risco e protetivos
Há risco iminente à vida ou de deterioração grave do quadro clínico, com necessidade de intervenção imediata?
SIM
VERMELHO
Atendimento imediato pela equipe: avaliar necessidade de acionar serviço de urgência/emergência com apoio da eMulti.
NÃO
Há situações de gravidade moderada, com potencial de agravamento se não houver avaliação e acompanhamento oportunos?
SIM
AMARELO
Atendimento prioritário no mesmo turno ou o mais breve possível.
Cuidado compartilhado com eMulti e CAPS.
NÃO
Há condições estabilizadas ou sofrimento psíquico leve a moderado, sem risco à vida, com necessidade de acompanhamento longitudinal?
SIM
VERDE
Atendimento no dia.
Articulação com eMulti, componentes da RAPS de menor complexidade e rede intersetorial, se necessário.
NÃO
São demandas não urgentes, quadros crônicos estáveis ou ações voltadas à promoção, prevenção em saúde mental e manutenção?
AZUL
Intervenção programada.
Articular com rede intersetorial, demais serviços da APS, centro de convivência e estratégia de reabilitação psicossocial.

ARTICULAÇÃO NA RAPS

APS coordena o cuidado em todos os níveis
O fluxograma será apresentado em sequência.

Para populações em situação de rua, pessoas privadas de liberdade e outros grupos em situação de maior vulnerabilidade social, recomenda-se consultar os documentos específicos do Ministério da Saúde referentes ao Consultório na Rua (CnR), às Equipes de Atenção Primária Prisional (eAPP) e às demais políticas de atenção à saúde dessas populações, que apresentam orientações complementares para avaliação, estratificação de risco e organização do cuidado.

Após a estratificação de risco, qual deve ser o próximo passo no cuidado?

A territorialização, o cadastramento das famílias, as visitas domiciliares, a discussão de casos em equipe, a construção do PTS, o acompanhamento longitudinal e o conhecimento das redes de apoio do território são exemplos de ações que auxiliam na identificação precoce de pessoas em sofrimento psíquico e na compreensão de suas necessidades de saúde. Dessa forma, a estratificação complementa o raciocínio clínico e psicossocial da equipe, favorecendo a definição do nível de cuidado mais adequado e a articulação entre os diferentes pontos da RAPS.

Para que o cuidado escalonado seja efetivo, é fundamental que o PTS seja construído de forma integrada, envolvendo profissionais dos diferentes níveis assistenciais. Isso requer estratégias que favoreçam a comunicação entre os serviços, a corresponsabilização e o compartilhamento de decisões, fortalecendo a continuidade do cuidado. Cada serviço de saúde deve conhecer e reconhecer a rede existente em seu território — em âmbito local, municipal, regional ou estadual — a fim de orientar adequadamente os usuários e garantir o acesso ao cuidado sem discriminação e pelos meios menos invasivos possíveis. 

Mas, lembre-se:

É fundamental reforçar que referenciar não significa transferir integralmente a responsabilidade pelo cuidado. Referenciar é compartilhar o cuidado. A APS mantém seu papel de acompanhamento longitudinal e de coordenação da rede, sustentando o vínculo e evitando rupturas assistenciais. O plano de cuidado deve ser revisto periodicamente, à luz da evolução da situação e das necessidades da pessoa, assegurando continuidade e integralidade — características essenciais da RAPS.

Quando a APS identifica situações de maior complexidade ou dificuldades de manejo, a discussão de casos e o atendimento conjunto, por meio das estratégias de matriciamento, fortalecem a rede e qualificam as respostas. Quando o acompanhamento especializado deixa de ser necessário e a pessoa apresenta preservação da autonomia, o cuidado pode ser sustentado por intervenções psicossociais de menor intensidade e por uma abordagem centrada na pessoa, realizada pela equipe da APS.

Mas a atuação da APS não se encerra por aqui! É importante conhecermos o manejo compartilhado de condições prioritárias em saúde mental.

É o que veremos a seguir!

Crise(s) em saúde mental

Quando falamos em crises em saúde mental nos deparamos com uma facilidade em apontar que houve uma “crise” na qual uma pessoa ficou agressiva ou que “ele foi internado porque estava em crise”. Se você puder lembrar qual foi a última vez que te relataram uma “crise” de alguém que você cuida, como você definiria crise?

Não é raro que, após uma primeira crise em saúde mental que tenha evoluído para uma internação , a vida da pessoa seja afetada em diversos campos, como o trabalho, relacionamentos e até a sua rotina. E nesse caso temos uma pergunta importante: estas perdas elencadas, que chamamos de psicossociais, são causadas pelo transtorno mental ou por processos de institucionalização após as crises? A resposta depende de cada caso, mas reforça a necessidade de manejo territorial, contínuo e psicossocial, reduzindo o risco de cronificação e ruptura. Apesar de não termos uma só resposta para essa pergunta, precisamos ponderar que as crises apresentam uma complexidade para a qual, mesmo especialistas, podem não se sentirem preparados para lidar.  

Veja alguns aspectos centrais no manejo da crise em saúde mental clicando nos box abaixo.

Interpretação

Intervenção

Identificação

Quando considerar hospitalização ou acolhimento integral em momentos de crise?

Gravidade clínica e risco imediato

A pessoa apresenta risco significativo para si ou para outras pessoas, intenso comprometimento da capacidade de autocuidado, grave desorganização psíquica ou comportamental, ou necessita de monitoramento clínico contínuo que não pode ser ofertado com segurança no território.

Risco importante para si ou para outras pessoas

Perda importante da autonomia, intensa desorganização psíquica ou comportamental e risco que não possa ser manejado com segurança no território.

Impossibilidade temporária de cuidado no território

Mesmo após a mobilização dos recursos da APS, CAPS, família e demais dispositivos da RAPS e da rede intersetorial, a intensidade da crise impede que o cuidado seja realizado com segurança no território, exigindo acompanhamento intensivo por tempo determinado.

Vulnerabilidade psicossocial e necessidade de proteção temporária

A crise está associada a situações como ausência ou esgotamento da rede de apoio, violência, negligência, situação de rua, grave vulnerabilidade social, uso prejudicial de álcool e outras drogas ou outras condições que comprometam temporariamente a permanência segura da pessoa em seu contexto de vida.

Avaliação compartilhada da equipe

Após esgotadas as estratégias territoriais possíveis, considerando a situação clínica, psicossocial, os vínculos familiares e comunitários e a continuidade do Projeto Terapêutico Singular.

O período de hospitalização ou acolhimento deve ser o mais breve possível e articulado ao retorno e acompanhamento pela APS e pelos demais pontos da rede. 

O cuidado às pessoas com psicose na APS e na RAPS

Você já deve ter escutado os termos:

psicose, esquizofrenia e loucura, referindo-se a pessoas que perdem o contato com a realidade. Vamos refletir a partir da ótica de quem passa por essas experiências? 

Inicialmente, podemos destacar que nem todo quadro do campo da psicose é grave em si, nem necessariamente vai demandar uma internação psiquiátrica ou representar algum perigo à sociedade que justifique isolamento (COSTA, 2010).

O termo psicose engloba diversos fenômenos relacionados ao que pode ser caracterizado como distorção de pensamentos e percepções, possíveis perturbações de emoções e comportamentos, assim como discurso incoerente ou despropositado (OPAS, 2018). Duas categorias são importantes de serem compreendidas nesse campo: as alucinações e delírios. 

As ALUCINAÇÕES consistem em ouvir ou ver coisas que não existem (alteração sensorial).

Já os DELÍRIOS tem relação com alterações no pensamento que podem ser vistas pelas pessoas de fora como crenças falsas.

Geralmente as alucinações vêm acompanhadas de algum tipo de sistema delirante como acreditar que todas pessoas fazem parte de uma “conspiração internacional” que pode lhe estar perseguindo. Essa vivência pode ser acompanhada de outro sintoma, comum também no transtorno bipolar, que é a grandiosidade. O cuidado a pessoas com sofrimentos relacionados ao campo da psicose não é responsabilidade exclusiva do CAPS, é compartilhado entre a APS, o CAPS, a família, a comunidade e outros serviços do território.

O manual MI-mhGAP (OPAS, 2018, p. 35) nos ajuda a identificar alguns quadros de psicose. Observe as características descritas a seguir.

Algumas destas manifestações também podem estar presentes em quadros de transtorno bipolar. Lembrando que a desorganização do discurso, a presença de delírios e alucinações são indicadores importantes para o diagnóstico de psicose. 

O cuidado às pessoas com transtorno bipolar

Outra condição de saúde mental que também demanda o cuidado compartilhado entre os serviços especializados e a APS é o transtorno bipolar.

O que é?

O MI-mhGAP (OPAS, 2018) define esse transtorno como uma perturbação significativa do humor e dos níveis de atividade da pessoa, podendo oscilar entre dois pólos: a mania e a depressão.

Como se manifesta?

No pólo depressivo, se apresentar de forma cíclica, com diminuição da energia e atividade, antes ou depois de episódios de mania. 

A mania pode ser caracterizada como elevação de humor e aumento da energia, podendo ter sintomas como auto referência, distúrbios no sono, agitação e também podem surgir sintomas psicóticos associados.

Para avaliar um quadro de episódio agudo de mania considere:

Na fase prodrômica (anterior à fase aguda do quadro), a pessoa pode estar com o humor hipomaníaco, estando com alta produtividade no trabalho e em outros campos da vida como a sexualidade, sendo visto pelas pessoas à sua volta como alguém funcional e produtivo. É após a piora do quadro, que é iniciada a fase maníaca, na qual podem ocorrer a aceleração da fala, impulsividade (nos gastos de dinheiro, na sexualidade), desinibição, bom humor, dificuldade de concentrar-se e diminuição do sono (Brasil, 2013). 

Observar uma piora repentina do sono, disfarçada de produtividade e de uma urgência em realizar diversas atividades pode ser um caminho para agir nesse momento prodrômico. Em muitos casos, a pessoa com transtorno bipolar pode ter longos períodos de estabilidade do humor, realizando suas atividades com autonomia e funcionalidade.

Importante!

Na APS, a definição, o início e os ajustes da farmacoterapia devem respeitar o escopo de atuação de cada categoria profissional e os fluxos assistenciais estabelecidos no território, podendo ocorrer em cuidado compartilhado com os CAPS ou outros serviços especializados. 

Independentemente de quem prescreve, toda a equipe da APS desempenha papel fundamental no acompanhamento longitudinal, monitorando a adesão ao tratamento, identificando precocemente sinais de descompensação clínica, observando possíveis efeitos adversos, acompanhando exames laboratoriais solicitados, promovendo educação em saúde e articulando o cuidado com os serviços especializados quando necessário. 

O acompanhamento compartilhado entre APS e CAPS contribui para maior segurança do tratamento e para a continuidade do cuidado no território.

Para entender melhor sobre a utilização de fármacos, clique aqui e acesse o e-book da disciplina.

Na prática!

Quando o cuidado compartilhado fortalece a saúde física e mental

Acompanhe abaixo o caso de Carlos. Clique nas setas para navegar:

Carlos, 48 anos, é acompanhado pelo CAPS há cinco anos devido a um transtorno mental grave e persistente. Faz uso regular de antipsicóticos e apresenta boa estabilidade clínica, participando de oficinas terapêuticas e grupos no serviço. 

Nos últimos meses, durante uma consulta de rotina na UBS para renovação de receitas da hipertensão, a enfermeira observa ganho importante de peso, aumento da circunferência abdominal e níveis elevados de glicemia e pressão arterial.

A equipe da APS identifica que essas alterações podem estar relacionadas tanto aos hábitos de vida quanto aos efeitos metabólicos da medicação utilizada. 

Em vez de encaminhar novamente Carlos apenas ao CAPS, a equipe assume sua responsabilidade pelo cuidado integral: inicia o acompanhamento da hipertensão e do diabetes, orienta sobre alimentação e atividade física, realiza consultas de enfermagem periódicas, envolve o Agente Comunitário de Saúde (ACS) no acompanhamento domiciliar e compartilha o caso com o CAPS para reavaliação do esquema medicamentoso e atualização do Projeto Terapêutico Singular (PTS).

Ao longo dos meses, APS e CAPS mantêm contato periódico, ajustam conjuntamente o plano de cuidado e fortalecem a participação de Carlos em atividades comunitárias de promoção da saúde. 

A integração entre os serviços contribui para o controle das doenças crônicas, reduz o risco cardiovascular e mantém a estabilidade do quadro de saúde mental, sem ruptura dos vínculos construídos com a equipe da APS.

Reflita: Se Carlos fosse acompanhado apenas pelo CAPS, quem monitoraria sua hipertensão, diabetes, vacinação, rastreamentos, saúde bucal e demais necessidades de saúde? Como a atuação compartilhada entre APS e CAPS amplia a integralidade do cuidado?

Cuidado às pessoas com comportamento suicida

Outra condição de saúde mental que demanda o cuidado compartilhado da APS e dos serviços especializados em saúde mental é a autoagressão e o suicídio.

Muitas vezes as equipes de APS ficam angustiadas com o risco de que alguma intervenção possa desencadear um episódio de tentativa de suicidio. Essas situações podem mobilizar sensações de culpa, impotência ou até sofrimento dos trabalhadores. 

Apesar disso, a APS tem um papel importante na prevenção de quadros permeados pela ideação e risco de suicídio, já que, muitas vezes, o planejamento e as tentativas podem ser rastreados no território pelas equipes. 

Além disso, pela proximidade das equipes com seus territórios, em especial os ACS e TACS, é possível mapear agravos e condições de pessoas que não queiram buscar os serviços de saúde e que não procurariam algum serviço de saúde mental. 

Como conversar com o usuário sobre suicídio? Confira exemplos de abordagem na APS clicando nas abas abaixo:

Profissional: “Percebo que você tem passado por momentos muito difíceis. Gostaria de entender melhor como você tem se sentido.”

Profissional: “Pelo que você me contou, imagino que este tenha sido um período muito difícil. Em algum momento, você chegou a pensar que a vida não valia mais a pena ou desejou não acordar mais?” Outra opção: “Quero lhe fazer uma pergunta importante, que costumo fazer quando percebo que alguém está passando por um sofrimento como o seu. Em algum momento você pensou que seria melhor morrer ou teve vontade de acabar com a própria vida?”

Profissional: “Você pode me contar o que estava acontecendo naquele momento? O que aquela atitude representava para você?”

Atenção: No Brasil, tanto a tentativa de suicídio quanto o suicídio são eventos de notificação compulsória imediata, conforme estabelece a Portaria nº 1.271, de 6 de junho de 2014 (atualmente incorporada ao Anexo V da Portaria de Consolidação GM/MS nº 4, de 28 de setembro de 2017). A notificação tem caráter epidemiológico e de vigilância em saúde, não substitui o cuidado clínico e deve ser realizada de forma sigilosa. Seu objetivo é possibilitar o acionamento oportuno da rede de saúde e da rede de proteção, favorecendo intervenções precoces, acompanhamento longitudinal, prevenção de novas tentativas e organização do cuidado integral à pessoa e sua família.

Tecnologias do Cuidado em Saúde Mental na APS: Intervenções Psicossociais

Além das estratégias terapêuticas já apresentadas, vamos discutir o matriciamento e outras intervenções psicossociais que podem apoiar a APS no manejo compartilhado de situações complexas. Conhecer essas práticas e tecnologias contribui para qualificar o cuidado em saúde mental, considerando sempre a realidade de cada município e a possibilidade de adaptação à sua realidade.

Para conhecê-las melhor clique em cada uma das imagens a seguir: 

Matriciamento em Saúde Mental

Projeto Terapêutico Singular (PTS)

Psicofármacos

Genograma e Ecomapa

Grupos como dispositivos de cuidado

Geração de Renda e Economia Solidária

Finalizando

O cuidado em saúde mental na APS não se limita à identificação de diagnósticos ou ao encaminhamento para serviços especializados. Ao contrário, a APS se afirma como espaço estratégico de acolhimento, vínculo, acompanhamento longitudinal e coordenação do cuidado, articulando a RAS, a RAPS e a rede intersetorial do território para a atenção às diferentes situações de sofrimento mental. 

A estratificação de risco e o manejo compartilhado das condições de saúde mental emergem, nesse contexto, não como instrumentos burocráticos, mas como tecnologias de cuidado que qualificam decisões clínicas, fortalecem o vínculo e evitam práticas fragmentadas ou excessivamente medicalizantes. Ao reconhecer sinais de alerta, fatores de risco e de proteção, e ao utilizar tecnologias do cuidado a APS amplia sua capacidade de responder às crises, prevenir agravos e sustentar o cuidado no território. 

A importância do papel de cada profissional da APS no campo da saúde mental como um campo transversal, vivo e coletivo, foi reafirmado. Independentemente da categoria profissional ou do nível de formação, todos são agentes fundamentais na identificação precoce do sofrimento, no acolhimento qualificado, na construção de vínculos e na articulação do cuidado em rede.

Continue sua trajetória formativa!

Para alcançar um bom desempenho nos estudos, é fundamental acessar e utilizar todos os recursos didáticos disponibilizados na disciplina. Nesse sentido, recomendamos que você:

Até a próxima disciplina!

FICHA TÉCNICA

Em validação

Coordenação-geral:
Ana Cláudia Cardozo Chaves – SAPS/MS
Ana Luiza Ferreira Rodrigues Caldas – SAPS/MS
Ana Paula Neves Marques de Pinho – A.C. Camargo
Cristiane Martins Pantaleão – CONASEMS
Hisham Mohamad Hamida – CONASEMS
Mauro Junqueira – CONASEMS
Patricia da Silva Campos – CONASEMS
Verônica Savatin Wottrich – CONASEMS

Coordenação técnica e pedagógica:
Beatriz Zocal da Silva – SAPS/MS
Danylo Santos Silva Vilaça – SAPS/MS
Jacirene Gonçalves Lima Franco – SAPS/MS
Kelly Cristina Santana – CONASEMS
Maria da Penha Marques Sapata – CONASEMS
Marta de Sousa Lima – CONASEMS
Patricia da Silva Campos – CONASEMS
Soane Cristina Almeida dos Santos – CONASEMS
Thaís Coutinho de Oliveira – SAPS/MS

Elaboração de Conteúdo:
Adriana Santos Barbosa

Designer Educacional:
Gustavo Henrique Faria Barra – CONASEMS

Coordenação de Desenvolvimento Web e Gráfico:
Cristina Perrone – CONASEMS

Desenvolvimento Web:
Alexandre Itabayana – CONASEMS
Caroline Boaventura – CONASEMS

Projeto Gráfico e Design de Experiência:
Ygor Baeta Lourenço – CONASEMS

Ilustração:
Lucas Corrêa Mendonça – CONASEMS

Revisão Linguística:
Renata Alves Pires – CONASEMS

Imagens:
Fototeca do CONASEMS
Flickr CONASEMS
Flickr Ministério da Saúde
Flickr OPAS
Freepik
https://br.freepik.com

Uma estratégia que pode auxiliar no cuidado em saúde mental é fomentar grupos de geração de renda. Apesar de qualquer estratégia de geração de renda na APS ter potencial para fortalecer a inserção comunitária, protagonismo e a superação de desigualdades, destacamos a importância de incorporar a lógica da economia solidária. A ECONOMIA SOLIDÁRIA fomenta que o cuidado em saúde possa também ser co-coordenado pelos usuários, a partir de relações solidárias, éticas e focadas na co-gestão dos coletivos de usuários, familiares e trabalhadores. Com isso é possível propor estratégias que auxiliem a romper o isolamento e enfrentar o estigma relativo à loucura, quando os usuários podem comercializar suas produções como sujeitos potentes e criadores. A economia solidária pode ser também uma ferramenta formativas, autonomização dos participantes e reconhecimento das produções desenvolvidas, como estratégia que fomenta a intersetorialidade e que visa opor a lógica produtivista e alienada predominante no mundo do trabalho (Santiago, Yasui, 2015).

Alinhados à proposta do CAB 34, observamos que é relevante que os GRUPOS sejam mediados pela diversidade, convivência e tentativa de construção dos temas e objetivos dos grupos conjuntamente com usuários e familiares. Além disso, sugerimos levantar junto ao território, no qual o trabalhador atua, quais atividades já existem, na possibilidade de ser parceiro de grupos que já existem. Também pode ser interessante trazer figuras chave do território para colaborarem nos grupos da APS, já que essas pessoas conhecem características do território, assim como podem auxiliar no engajamento das pessoas nas atividades. Na APS, os grupos não possuem um único objetivo. Dependendo das necessidades do território e das pessoas acompanhadas, podem assumir diferentes funções no cuidado.

Na APS o cuidado em saúde mental envolve, necessariamente, compreensão do contexto familiar e das redes sociais que sustentam, ou fragilizam, a vida das pessoas (Silva e Dimenstein, 2014). Nesse sentido, o genograma e o ecomapa são instrumentos clínico-territoriais simples e potentes que ajudam a equipe a visualizar vínculos, conflitos, redes de apoio e fontes de proteção ou risco, qualificando a avaliação psicossocial e o planejamento do cuidado na APS (Brasil, 2013; MCGOLDRICK et al., 2016).

O GENOGRAMA permite visualizar graficamente a composição familiar ao longo de gerações, identificando vínculos, rupturas, padrões relacionais, eventos marcantes (lutos, adoecimentos, violências) e a circulação do cuidado no interior da família. Já o ECOMAPA amplia essa leitura para além da família, ao representar as relações da família com o território, serviços, grupos comunitários, trabalho, escola, igreja, CAPS, CRAS e outras redes formais e informais de apoio.

MEDICAÇÃO é uma possibilidade, um recurso, não o centro do cuidado. Deve ser indicada com critério clínico e ético, e nunca como substituto da escuta, vínculo e cuidado territorial. Deve ser avaliado sempre o contexto, impacto, riscos, adesão e alternativas psicossociais.

Boas práticas na terapêutica medicamentosa:

  • Avaliar impacto real na vida, funcionalidade, sofrimento e relação com o território.
  • Indicar com critério, acompanhar efeitos e revisar periodicamente.
  • Articular com CAPS ou especialistas nos casos mais complexos.
  • Evitar medicalização como resposta imediata ao sofrimento social.

Quando o medicamento for a melhor opção, pense sobre: Para quem é este medicamento? O que ele trata? O que ele não trata? Qual o impacto na funcionalidade dessa pessoa e da família? Há outras ações psicossociais possíveis?

O PTS é uma das principais tecnologias de cuidado utilizadas na APS e na RAPS. Trata-se de uma estratégia clínico-assistencial, ético-política e de gestão do cuidado, construída de forma compartilhada entre usuário, familiares (quando pertinente), equipe de saúde e, quando necessário, outros serviços e setores envolvidos no cuidado (Brasil, 2009; Cunha; Campos, 2011).

Diferentemente de um plano elaborado exclusivamente pelos profissionais, o PTS parte do princípio de que cada pessoa possui necessidades, potencialidades, projetos de vida, valores e contextos sociais singulares, que não podem ser reduzidos ao diagnóstico ou à doença. Por isso, sua construção envolve diálogo, escuta qualificada e tomada de decisão compartilhada, buscando ampliar a autonomia do usuário, fortalecer sua participação no cuidado e favorecer a corresponsabilização entre profissionais, serviços e comunidade. Na APS, o PTS pode ser utilizado em diferentes situações de cuidado, não apenas diante de casos considerados complexos. 

Diferentemente de modelos hierarquizados de referência e contrarreferência, o MATRICIAMENTO propõe uma relação horizontal, na qual os serviços especializados — como os CAPS — não se colocam como detentores exclusivos do saber, mas como parceiros na construção do cuidado (Chiaverini et al., 2011; Brasil, 2011). O matriciamento não é apenas uma ferramenta em saúde mental e constitui uma dimensão organizativa do trabalho em saúde, na organização do cuidado integral e na relação entre serviços de saúde e profissionais de saúde e da intersetorialidade. 

Como podemos, então, definir a ocorrência de uma crise em saúde mental? Dell Acqua e Mezzina (1991) sugerem que seja analisada a relação entre cinco fatores:

1- Grave sintomatologia psiquiátrica;

2- Grave ruptura no plano familiar e/ou social;

3- Recusa do tratamento;

4- Recusa obstinada de contato;

5- Situações de alarme em seu contexto de vida e incapacidade pessoal de afrontá-las.

As crises na APS demandam intervenções flexíveis, rápidas, cuidadosas e baseadas na singularidade de cada situação. Alguns princípios fundamentais:

  • Reconectar a pessoa às suas redes sociais e recursos cotidianos, evitando que a crise resulte em isolamento ou ruptura.
  • Compreender a crise como parte da história do sujeito, e não como algo externo à sua trajetória.
  • Ampliar a responsabilidade pelos cuidados, envolvendo não apenas o usuário, mas também a família, a comunidade, os serviços da RAPS e dispositivos intersetoriais.
  • Construir com o sujeito novas formas de lidar com o sofrimento.

No cuidado a crises em saúde mental dividimos 3 pontos importantes a serem observados pelos profissionais da APS em suas intervenções que são: acesso, tempo e local.

É importante lembrar que nem toda crise em saúde mental representa um transtorno mental ou exige atendimento especializado imediato. Ao longo da vida, todas as pessoas podem vivenciar crises relacionadas ao desenvolvimento humano, como adolescência, saída da casa dos pais, casamento, nascimento de filhos, aposentadoria ou luto. 

Essas situações costumam provocar intenso sofrimento, mas fazem parte das transições da vida e, na maioria das vezes, podem ser acompanhadas pela APS com acolhimento, escuta qualificada, fortalecimento da rede de apoio e acompanhamento longitudinal. 

Existem também as crises acidentais ou desestruturantes, desencadeadas por acontecimentos inesperados, como violência, desastres, perdas importantes, desemprego, diagnóstico de doenças graves ou outras situações que rompem o senso de segurança e exigem reorganização da vida. Em ambos os casos, a intensidade do sofrimento, a presença de fatores de risco e o impacto sobre a capacidade de funcionamento da pessoa orientarão a necessidade de cuidado e a articulação com outros pontos da RAPS.

Uma menina de 10 anos é levada à Unidade Básica de Saúde pela avó, responsável legal, com a queixa de que “não obedece”, “briga na escola” e “vive agitada”. A escola solicitou avaliação psicológica e sugeriu que a criança “precisa de um laudo para continuar frequentando as aulas com as adaptações necessárias”. 

Na escuta inicial, a enfermeira identifica que a menina apresenta queda recente no rendimento escolar, episódios de agressividade com colegas e dificuldade para dormir. Ao aprofundar a avaliação, surgem informações sobre mudanças recentes na família: separação conflituosa dos pais, mudança de residência e ausência prolongada da mãe por motivos de trabalho. Em conversa protegida e adequada a sua idade, a criança relata sentir-se triste frequentemente, com medo de ficar sozinha e dificuldade para se concentrar na escola. 

A equipe da APS de forma compartilhada com terapeuta ocupacional, psicóloga, médica e equipe de enfermagem, realizam avaliação psicossocial, identifica ausência de sinais de risco iminente e reconhece fatores de vulnerabilidade associados ao contexto familiar, escolar e territorial. O cuidado é organizado na APS, com acompanhamento longitudinal, escuta qualificada, orientação à avó, articulação com a escola e inclusão da criança em atividades grupais no território, favorecendo a convivência, expressão e fortalecimento de vínculos. O CAPS i é acionado para apoio matricial, com discussão de caso e construção conjunta de estratégias de cuidado, contribuindo para a qualificação do cuidado, sem ruptura do vínculo com a UBS. A situação deixa de ser tratada como um “problema de comportamento” isolado e passa a ser compreendida como expressão de um sofrimento produzido nas relações e nas condições de vida da criança.

A ampliação do acesso em saúde mental não se faz apenas pela existência de serviços especializados, mas, sobretudo, pela integração efetiva da saúde mental à APS com o cuidado equitativo e apoiado por estratégias, como o cuidado compartilhado e o apoio matricial. Assim, fortalecer a articulação entre APS e os outros componentes da RAPS não é apenas uma escolha organizativa, mas uma defesa de um cuidado integral, psicossocial e articulado com o território.

Clique nas setas para navegar.

Uma equipe de Saúde da Família acompanha um homem de 29 anos, morador do território, com histórico de sofrimento mental desde a adolescência. Ele não possui diagnóstico formal registrado, realiza trabalhos informais, anda pela rua cantando e vive com a mãe, idosa, que é sua principal cuidadora. Nos últimos meses, o usuário passou a apresentar insônia intensa, falas desconexas, desconfiança em relação aos vizinhos e episódios de agitação. A comunidade procura a UBS solicitando “um encaminhamento urgente para o CAPS”, afirmando que “o paciente precisa de mais do que o atendimento no postinho”. Clique nas setas e confira os próximos passos:

Diante dessa situação, qual é o papel da APS?

Primeiro a equipe faz uma avaliação inicial, nela o enfermeiro da eSF identifica ausência de risco iminente, mas presença de sofrimento mental importante. A assistente social da eMulti reconhece a vulnerabilidade social, vínculos comunitários fragilizados, uso ocasional de álcool e ausência de rede de apoio ampliada. Além disso, veem que a mãe apresenta exaustão emocional e medo de uma nova internação psiquiátrica e a equipe observa interesse do usuário por música.

Qual a melhor conduta, nesse caso?

A equipe decide não realizar apenas um encaminhamento, mas organizar o cuidado de forma compartilhada:

  • acolhe o usuário e a família na APS, garantindo escuta e vínculo;
  • agenda acompanhamento longitudinal com a equipe;
  • discute o caso com o CAPS, por meio de reunião online entre médico, enfermeiro da eSF e psiquiatra do CAPS, para apoio matricial e avaliação conjunta;
  • constrói um PTS envolvendo usuário, família e rede;
  • articula com o Centro de Referência da Assistência Social para suporte à família e avaliação em relação a possível acesso a benefícios e/ou programas de transferência de renda;
  • Mapeia parceiros intersetoriais que possam ofertar estratégias de convivência, arte e comunicação, articulando sua participação em um grupo cultural comunitário e em atividades coletivas promovidas pelo CAPS, valorizando a expressão, a troca e o reconhecimento social.

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