Aperfeiçoamento da Prática em Coordenação do Cuidado a partir da Atenção Primária à Saúde – APS

Módulo III – Estratificação e Classificação de Risco na Atenção Primária à Saúde

Disciplina 8

Estratificação e Classificação de Risco Social e Epidemiológico

Olá, estudante! Retornamos aos nossos estudos!

Quanta informação importante você viu até aqui, não é mesmo? No Módulo III, tendo por tema central a Estratificação e Classificação de Risco na Atenção Primária à Saúde, não será diferente.

Como ponto de partida, a Disciplina 8: Estratificação e Classificação de Risco Social e Epidemiológico conecta os conceitos de risco e vulnerabilidade à prática da APS, capacitando profissionais e gestores a utilizar ferramentas e indicadores para estratificar as necessidades de saúde em um território vivo.

Agora que você já conhece o propósito da disciplina, é hora de dar o próximo passo. 

Avance para conhecer os objetivos de aprendizagem, com o propósito de orientar sua trajetória.

Objetivos de Aprendizagem

Ao final de seus estudos, espera-se que você seja capaz de:

Clique nas setas para navegar.

Compreender os conceitos de risco, vulnerabilidade e resiliência.

Diferenciar risco e vulnerabilidade no campo da saúde coletiva, no âmbito da Atenção Primária e no território.

Elencar os elementos dos cinco campos que definem vulnerabilidade.

Aplicar a escala de vulnerabilidade familiar.

Analisar as diferentes possibilidades de uso da escala de vulnerabilidade familiar nos territórios.

Avaliar as estratégias de uso da escala de vulnerabilidade familiar em seu próprio território.

Agora imagine a seguinte situação:

Você atua na Atenção Primária à Saúde e necessita, em reunião de equipe, determinar quais famílias demandam mais investimentos, seja em termos de visitas domiciliares, seja em termos de redistribuição de Agentes Comunitários de Saúde (ACS) e da assistência social, seja em termos de priorização de atendimentos por médicos e enfermeiros. 

O que é mais importante quando pensamos em organizar o cuidado às pessoas no território em que vivem? As questões clínicas? As famílias residentes em áreas consideradas de risco? As famílias em situação de conflito? A vulnerabilidade em suas mais diferentes vertentes?

Como vocês priorizariam?

Conceituando Risco e Vulnerabilidade em Saúde

Correlacionar risco e vulnerabilidade no campo da saúde é desafiador

Embora surjam da mesma realidade, eles mudam de forma distinta ao longo do tempo, exigem maneiras diferentes de avaliação e têm pesos próprios na ocorrência de danos a indivíduos e comunidades. 

Por essa razão, torna-se indispensável incluir outro conceito nessa dinâmica: a resiliência, que atua como o oposto direto da vulnerabilidade e se consolida como a força central necessária para que as famílias enfrentem e superem os riscos existentes no território.

Vamos conversar um pouco mais sobre isso?

Vamos examinar os significados de cada conceito.

Clique nas abas para visualizar o conteúdo.

Envolve o conceito de magnitude e probabilidade. Representa um processo sistemático de validação, cuja inferência epidemiológica passa a se basear em estimativas matemáticas da chance de associação causal, sendo visto como uma expressão da racionalidade aplicada à epidemiologia e afastando-se da subjetividade.

A vulnerabilidade identifica a condição dos indivíduos diante dos riscos presentes na sociedade, analisados e atribuídos a algo singular e inerente a quem analisamos, no caso, às pessoas, às famílias e às comunidades.

É a capacidade de superação e adaptação diante de uma ameaça ou perigo, que precisam ser entendidos e analisados. Não se trata de uma característica que deva ser “adquirida” ou “desenvolvida”, sob o risco de culpabilizar as pessoas vulnerabilizadas por sua maior ou menor resiliência.

Que tal alguns exemplos de risco e vulnerabilidade?

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EXEMPLO 1

Quando falamos de uma situação ambiental, como uma voçoroca que está invadindo um bairro, estamos nos referindo a um fator de risco que ameaça as casas e sobre o qual as medidas desenvolvidas pelas famílias atingidas ou pela comunidade têm pouca probabilidade de produzir um efeito modificador, sendo, portanto, encarado como risco.

Para essas questões, porém, podem existir políticas públicas de realocação de famílias e de concessão de aluguel social para atingidos por desastres, por exemplo, além de ações do poder público municipal, estadual ou federal capazes de modificar riscos ambientais.

EXEMPLO 2

Numa comunidade com poucos recursos, existem famílias vulneráveis em função do grau de exposição à pobreza, às violências e a outras insuficiências e da capacidade de lidar com essas condições.

Essa capacidade depende de fatores individuais, da estrutura familiar e da rede de apoio comunitária. Tal condição pode ser utilizada para avaliar a vulnerabilidade dessas famílias.

Agora reflita: como podemos diferenciar vulnerabilidade no âmbito da Atenção Primária à Saúde (APS) e na Saúde Coletiva?

Veja as principais diferenças entre os dois âmbitos:

A Saúde Coletiva e Gestão Ampliada foca em grandes populações, direitos humanos e garantia de cidadania para grupos fragilizados, considerando cenários amplos como riscos ambientais e programas estatais de proteção.

na Atenção Primária à Saúde (APS), o foco recai sobre indivíduos, famílias e o território local, onde a vulnerabilidade é vista em relação à clínica individual, à dinâmica familiar e às estruturas sociais comunitárias, operando como um antônimo da resiliência no enfrentamento do risco.

É importante dizer que, na perspectiva da saúde coletiva, a vulnerabilidade é entendida por Ayres como um fenômeno que envolve três eixos:

INDIVIDUAL

Considera a suscetibilidade de todos os indivíduos (ou seja, um olhar coletivo sobre as individualidades, divididas em grupos sociais ou comportamentais).

SOCIAL

Analisa fatores contextuais, como acesso à informação e condições socioeconômicas (que influenciam diretamente a vulnerabilidade).

PROGRAMÁTICO

Avalia como instituições sociais, como saúde e educação, podem reproduzir ou mitigar a vulnerabilidade. 

Guarde essa informação importante!

Do ponto de vista da APS, há uma nítida separação entre o que é comunitário – o conjunto de pessoas que compõem as áreas de abrangência – e o que é coletivo, relacionado às grandes populações. Portanto, para a APS, faz mais sentido entender a vulnerabilidade como uma balança que equilibra:

Clique nos números na balança.

Do ponto de vista da APS, há uma nítida separação entre o que é comunitário – o conjunto de pessoas que compõem as áreas de abrangência – e o que é coletivo, relacionado às grandes populações. Portanto, para a APS, faz mais sentido entender a vulnerabilidade como uma balança que equilibra:

Figura 1 ─ Impacto dos fatores individuais, familiares e sociais, das redes de apoio social e das políticas públicas na correlação entre vulnerabilidade, risco e resiliência

VULNERABILIDADE

Políticas 
públicas

RISCO

Rede de
apoio social

RESILIÊNCIA

Fatores individuais, familiares e sociais

Fatores individuais, familiares e sociais

Fonte: Adaptado de Savassi; Barroso, 2022.

De um lado, os riscos aos quais a família está exposta. 

Do outro lado, a sua resiliência, ou seja, a capacidade de lidar com esses riscos.

É importante destacar que, entre risco, resiliência e vulnerabilidade, pode haver desde uma exposição simples a um fenômeno até uma interação dinâmica, visto que o território é vivo, assim como as famílias e as comunidades, e suas correlações não se dão de maneira estanque ou em relações lineares de causa e efeito.

Reis et al. (2024) demonstraram que os riscos também se reforçam mutuamente: por exemplo, doenças podem causar perda de renda, aumento de gastos e endividamento, ampliando ou mantendo, como consequência, a condição de pobreza, que é uma sentinela de risco. 

Então, se avaliarmos essa interação, a vulnerabilidade emerge como um processo dinâmico, resultante da interação entre riscos e recursos familiares. Amendola et al. (2014) ilustraram isso ao demonstrar que famílias com renda baixa podem exibir menor vulnerabilidade se dispuserem de redes de apoio, enquanto outras, com renda média, podem se tornar vulneráveis devido à falta de acesso a serviços de saúde. 

De um lado, os riscos aos quais a família está exposta. 

Do outro lado, a sua resiliência, ou seja, a capacidade de lidar com esses riscos.

É importante destacar que, entre risco, resiliência e vulnerabilidade, pode haver desde uma exposição simples a um fenômeno até uma interação dinâmica, visto que o território é vivo, assim como as famílias e as comunidades, e suas correlações não se dão de maneira estanque ou em relações lineares de causa e efeito.

Reis et al. (2024) demonstraram que os riscos também se reforçam mutuamente: por exemplo, doenças podem causar perda de renda, aumento de gastos e endividamento, ampliando ou mantendo, como consequência, a condição de pobreza, que é uma sentinela de risco. 

Então, se avaliarmos essa interação, a vulnerabilidade emerge como um processo dinâmico, resultante da interação entre riscos e recursos familiares. Amendola et al. (2014) ilustraram isso ao demonstrar que famílias com renda baixa podem exibir menor vulnerabilidade se dispuserem de redes de apoio, enquanto outras, com renda média, podem se tornar vulneráveis devido à falta de acesso a serviços de saúde. 

Métodos e indicadores para a estratificação e a classificação da vulnerabilidade familiar

Diante das definições de risco, vulnerabilidade e resiliência na área da saúde, você percebe como esses termos se cruzam e se opõem ao mesmo tempo? 

Há algum método que permita antever a capacidade de uma família de enfrentar crises de natureza social, econômica ou sanitária?

Há algum método que permita antever a capacidade de uma família de enfrentar crises de natureza social, econômica ou sanitária?

A estratificação baseada em sentinelas de risco tornou-se uma ferramenta essencial para identificar famílias com maior vulnerabilidade a doenças e agravos em comunidades atendidas pela APS.

A Escala de Vulnerabilidade Familiar, consolidada cientificamente e com evidências crescentes, permite essa análise. Mesmo tendo sido desenvolvida com base em sistemas de informação anteriores, o modelo atual, por ser mais abrangente, potencializa a identificação precisa dessas sentinelas, possibilitando uma avaliação ainda mais detalhada da vulnerabilidade familiar.

O instrumento de avaliação da vulnerabilidade na APS em saúde pública

A Escala de Vulnerabilidade Familiar de Coelho e Savassi (EVF-CS) foi criada para sistematizar e priorizar as visitas domiciliares e a alocação equânime de recursos, garantindo que famílias em maior vulnerabilidade recebam acompanhamento intensificado.

Entenda como utilizar a Escala de Vulnerabilidade Familiar de Coelho e Savassi (EVF-CS) na prática.

Clique nas perguntas.

A escala utiliza “sentinelas de risco” baseadas nos dados cadastrais (Ficha de Cadastro Individual do SIAPS – FCI – e Ficha de Cadastro Domiciliar e Territorial – FCDT) para calcular um escore.

A lógica é simples: quanto maior a soma de riscos individuais e socioeconômicos, maior a prioridade da família.

Quadro 1 ─ Sentinelas de risco e respectivos escores de risco para a Escala de Vulnerabilidade Familiar de Coelho e Savassi (EVF-CS)

SENTINELAS DE RISCO

ESCORE DE RISCO

ONDE ENCONTRAR?*

Acamado

3

FCI

Deficiência Física

3

FCI

Deficiência Mental

3

FCI

Baixas condições de saneamento

3

FCDT

Desnutrição grave

3

FCI

Drogadição (uso problemático de álcool/ drogas)

2

FCI

Desemprego

2

FCI

Analfabetismo

1

FCI

Indivíduo menor de seis meses de idade

1

FCI

Indivíduo maior de 70 anos de idade

1

FCI

Hipertensão Arterial Sistêmica

1

FCI

Diabetes Mellitus

1

FCI

Relação morador/ cômodo maior que 1
Relação morador/ cômodo igual a 1
Relação morador/ cômodo menor que 1

3
2
0

FCDT

SENTINELAS DE RISCO

Acamado

ESCORE DE RISCO

3

ONDE ENCONTRAR?*

FCI

SENTINELAS DE RISCO

Deficiência Física

ESCORE DE RISCO

3

ONDE ENCONTRAR?*

FCI

SENTINELAS DE RISCO

Deficiência Mental

ESCORE DE RISCO

3

ONDE ENCONTRAR?*

FCI

SENTINELAS DE RISCO

Baixas condições de saneamento

ESCORE DE RISCO

3

ONDE ENCONTRAR?*

FCDT

SENTINELAS DE RISCO

Desnutrição grave

ESCORE DE RISCO

3

ONDE ENCONTRAR?*

FCI

SENTINELAS DE RISCO

Drogadição (uso problemático de álcool/ drogas)

ESCORE DE RISCO

2

ONDE ENCONTRAR?*

FCI

SENTINELAS DE RISCO

Desemprego

ESCORE DE RISCO

2

ONDE ENCONTRAR?*

FCI

SENTINELAS DE RISCO

Analfabetismo

ESCORE DE RISCO

1

ONDE ENCONTRAR?*

FCI

SENTINELAS DE RISCO

Indivíduo menor de seis meses de idade

ESCORE DE RISCO

1

ONDE ENCONTRAR?*

FCI

SENTINELAS DE RISCO

Indivíduo maior de 70 anos de idade

ESCORE DE RISCO

1

ONDE ENCONTRAR?*

FCI

SENTINELAS DE RISCO

Hipertensão Arterial Sistêmica

ESCORE DE RISCO

1

ONDE ENCONTRAR?*

FCI

SENTINELAS DE RISCO

Diabetes Mellitus

ESCORE DE RISCO

1

ONDE ENCONTRAR?*

FCI

SENTINELAS DE RISCO

Relação morador/ cômodo maior que 1
Relação morador/ cômodo igual a 1
Relação morador/ cômodo menor que 1 

ESCORE DE RISCO

3
2
0

ONDE ENCONTRAR?*

FCDT

FCI: Ficha de Cadastro Individual
FCDT: Ficha de Cadastro Domiciliar e Territorial

Fonte: Coelho; Savassi, 2004.

Saiba como é atribuída a pontuação das sentinelas individuais na Escala de Vulnerabilidade Familiar de Coelho e Savassi (EVF-CS)

A pontuação das sentinelas individuais, tais como hipertensão, diabetes e uso problemático de álcool e outras drogas, é atribuída de acordo com sua presença em cada indivíduo. Assim, um indivíduo hipertenso que também apresente dificuldade relacionada ao uso de substâncias psicoativas pontuará em ambas as sentinelas. 

Já em um domicílio que tenha cinco pessoas hipertensas, o escore de cada uma delas contribuirá com cinco pontos para a classificação da família. Dessa forma, a partir da soma dos escores de risco de cada indivíduo daquela família, é estabelecida a classificação de sua vulnerabilidade, que pode variar de habitual até máxima.

Clique aqui para visualizar o cálculo da vulnerabilidade familiar para a Escala de Vulnerabilidade Familiar de Coelho e Savassi (EVF-CS).

Quer um exemplo de aplicação da EVF-CS?

Tendo por referência as sentinelas de risco e os respectivos escores, classifique uma família que possui dois acamados.

ACAMADO 1

Um idoso de 75 anos de idade

1

Hipertenso

1

Acamado

3

Não foi alfabetizado

1

Não existem outras sentinelas de risco nesta família.

0

Total

6 pontos

ACAMADO 2

Um acamado

3

Apresenta deficiência física (amputação traumática de membros inferiores)

3

Não foi alfabetizado

1

Não existem outras sentinelas de risco nesta família.

0

Total

7 pontos

Diante da soma da pontuação, qual a vulnerabilidade familiar encontrada neste exemplo?

R0 - Vulnerabilidade habitual: 0 a 4 pontos
R1 - Vulnerabilidade menor: 5 e 6 pontos
R2 - Vulnerabilidade média: 7 e 8 pontos
R3 - Vulnerabilidade máxima: Acima de 9

Para facilitar o uso da Escala de Vulnerabilidade Familiar de Coelho e Savassi (EVF-CS), apresentamos uma calculadora que organiza a lógica do cálculo familiar, considerando cada sentinela a partir de um cálculo matemático e permitindo a obtenção do escore final para cada família. Para isso, clique aqui e consulte o e-book

Aplicabilidade prática das sentinelas de risco e dos escores de estratificação da vulnerabilidade

Para a correta mensuração da vulnerabilidade, devem ser considerados cinco domínios de informações, que interagem entre si e estabelecem conexões.

Clique nas abas para visualizar o conteúdo.

Indicadores individuais, como saúde física e mental, escolaridade e autonomia e independência, constituem determinantes-chave da vulnerabilidade familiar.

Doenças crônicas e envelhecimento aumentam a dependência familiar, enquanto a baixa escolaridade pode limitar o acesso a informações de saúde e ampliar a insegurança alimentar, em razão das menores oportunidades de emprego e renda. 

Eventos estressores individuais (desemprego, luto) podem desestabilizar toda a família, especialmente quando há escassez de recursos emocionais ou financeiros para lidar com crises. 

Esses achados sublinham que a vulnerabilidade familiar é, em parte, uma soma de fragilidades individuais não mitigadas, que se amplificam em contextos de adversidade coletiva.

A organização, a estrutura e a dinâmica interna das famílias são centrais para compreender a vulnerabilidade. Exemplos como hospitalização e ameaça à autonomia familiar, disfunções familiares estruturais e padrões relacionais tóxicos aumentam a suscetibilidade a crises. Por sua vez, intervenções focadas em fortalecer vínculos familiares reduzem a vulnerabilidade. A avaliação holística da família – incluindo funcionamento, crenças e interações – permite identificar pontos frágeis e oportunidades de resiliência. Esses achados reforçam que a vulnerabilidade familiar é um produto tanto de dinâmicas internas quanto de respostas a pressões externas, e os elementos que definem esse componente da vulnerabilidade familiar incluem questões estruturais – como a tipologia familiar –, sistêmicas e subsistêmicas, relacionadas à comunicação. 

A vulnerabilidade familiar está diretamente enraizada em contextos comunitários e sociais. Exclusão social, insegurança alimentar, acesso desigual a serviços públicos e violência estrutural são determinantes sociais críticos, assim como condições sanitárias precárias, risco de arboviroses e acumulação de desvantagens socioeconômicas (como a associação entre desemprego e analfabetismo) vinculadas a ciclos de vulnerabilidade intergeracional, especialmente em famílias suburbanas. Destaca-se ainda a geografia da vulnerabilidade, mostrando como famílias em áreas rurais ou urbanas marginalizadas enfrentam barreiras adicionais, como distância de unidades de saúde e exposição a desastres ambientais. Esses elementos revelam que a vulnerabilidade não é apenas um fenômeno individual, mas um reflexo de falhas sistêmicas na organização social e na distribuição de recursos.

Molda significativamente a percepção e a experiência da vulnerabilidade. Valores culturais constituem um indicador ecológico que pode afetar a vulnerabilidade familiar, em especial do ponto de vista da discrepância de valores entre sociedade e famílias, impactando modos de cuidar, procura por serviços de saúde, enfrentamento/coping ou ainda maior risco de abuso sexual. Questões culturais podem ser o catalizador para a exclusão social e, como consequência, para a vulnerabilidade. Valores, tradições e hierarquias sociais podem tanto proteger quanto intensificar a vulnerabilidade, dependendo do contexto. A falta de estudos nessa área – especialmente em culturas não ocidentais – limita a compreensão de estratégias culturalmente sensíveis para intervenção.

Espiritualidade e religiosidade emergem como fatores ambíguos, porém relevantes: por um lado, a crença religiosa pode ser um fator de proteção ao risco de suicídio, pois pode fornecer um senso de propósito; por outro lado, valores morais rígidos associados a certas religiões podem aumentar a vulnerabilidade de adolescentes LGBTQ+ ao conflito familiar e à exclusão. Do mesmo modo, a crença em causas sobrenaturais para doenças retarda o acesso a tratamentos médicos, agravando condições de saúde. A espiritualidade pode ser tanto um amortecedor de crises quanto um gerador de tensões, dependendo de como se articula com outros domínios, como o cultural e o social.

Utilidade da Escala de Vulnerabilidade Familiar de Coelho e Savassi

O que é fundamental perceber com o uso dessa ferramenta?

A EVF-CS não se resume à priorização de famílias para visitas domiciliares ou à definição de qual família apresenta maior risco de adoecimentos. Ela pode ser utilizada como elemento central do planejamento pelas equipes, definindo a frequência de cuidado pelos ACS ou reorganizando o processo de trabalho de enfermeiros ou famílias com foco em saúde oral ou assistência social, estabelecendo prioridades em todo o processo de cuidado em saúde. 

Quer compreender melhor esse conteúdo? Então clique aqui e consulte o e-book

Agora vamos observar um exemplo prático do uso da Escala de Vulnerabilidade Familiar de Coelho e Savassi na reorganização do processo de trabalho dos ACS.

No exemplo, microáreas foram classificadas pelo risco social, pelo número total de famílias e pela vulnerabilidade de cada família. 

Vulnerabilidade
habitual

Vulnerabilidade
média

Vulnerabilidade
menor

Vulnerabilidade
máxima

Vulnerabilidade
habitual

Vulnerabilidade
menor

Vulnerabilidade
média

Vulnerabilidade
máxima

A partir dos dados analisados, definiram-se diferentes aprazamentos, de acordo com cada perfil. 

Clique nos cards para expandir.

Quadro 3 – Organização do aprazamento das VD dos ACS segundo Guzella

Fonte: Adaptado de Savassi; Lage; Coelho, 2011.

Clique nas abas para visualizar o conteúdo. 

A microárea 3, como mais vulnerável, permitiu a distribuição de famílias de vulnerabilidade habitual para visitas a cada 90 dias, enquanto famílias mais vulneráveis seriam visitadas a cada 15 dias. 

Já na microárea 7, em um cenário de menos famílias e menos risco, as visitas foram distribuídas entre 45 dias para famílias de vulnerabilidade habitual e 15 dias para vulnerabilidade máxima.

Perceba que, no cálculo da carga horária, ainda que a microárea 3 tenha o dobro de famílias e uma pior proporção de famílias mais vulneráveis, o número total de visitas e o tempo de dedicação de cada ACS para as visitas deixa de ser uma grande sobrecarga para uns, permitindo a dedicação de 115 horas e 229 visitas mensais para o ACS no pior cenário, 100 horas e 200 visitas para microáreas intermediárias e 99 horas e 197 visitas mensais para o ACS da microárea menos sobrecarregada. 

Finalizando

Ao longo desta disciplina, exploramos como os conceitos de risco, vulnerabilidade e resiliência são fundamentais para a atuação na APS e para o cuidado integral das famílias no território.

Dessa forma, compreendemos que a vulnerabilidade familiar não deve ser vista como uma condição imutável, mas como um chamado para o desenvolvimento de estratégias e políticas que convertam desafios em caminhos para o fortalecimento do coletivo. O objetivo é equilibrar o controle de riscos com o fomento de capacidades adaptativas.

Esperamos que esse conhecimento permita a você realizar análises aprofundadas sobre risco e vulnerabilidade, utilizando ferramentas para mensurar e avaliar esses fenômenos em suas múltiplas dimensões: do âmbito individual e familiar ao contexto comunitário, social, ambiental ou programático.

Continue sua trajetória formativa!

Para alcançar um bom desempenho nos estudos, é fundamental acessar e utilizar todos os recursos didáticos disponibilizados na disciplina. Nesse sentido, recomendamos que você:

Até a próxima disciplina!

FICHA TÉCNICA

Coordenação-geral:
Ana Cláudia Cardozo Chaves – SAPS/MS
Ana Luiza Ferreira Rodrigues Caldas – SAPS/MS
Ana Paula Neves Marques de Pinho – A.C. Camargo
Cristiane Martins Pantaleão – CONASEMS
Hisham Mohamad Hamida – CONASEMS
Mauro Junqueira – CONASEMS
Verônica Savatin Wottrich – CONASEMS

Coordenação técnica e pedagógica:
Beatriz Zocal da Silva – SAPS/MS
Jacirene Gonçalves Lima Franco – SAPS/MS
Kelly Cristina Santana – CONASEMS
Maria da Penha Marques Sapata – CONASEMS
Marta de Sousa Lima – CONASEMS
Patricia da Silva Campos – CONASEMS
Soane Cristina Almeida dos Santos – CONASEMS
Thaís Coutinho de Oliveira – SAPS/MS
Valdívia França Marçal – CONASEMS

Elaboração de Conteúdo:
Leonardo Cançado Monteiro Savassi

Designer Educacional:
Alexandra da Silva Gusmão – CONASEMS

Coordenação de Desenvolvimento Web e Gráfico:
Cristina Perrone – CONASEMS

Desenvolvimento Web:
Aidan Bruno – CONASEMS
Alexandre Itabayana – CONASEMS
Caroline Boaventura – CONASEMS

Projeto Gráfico e Design de Experiência:
Ygor Baeta Lourenço – CONASEMS

Ilustração:
Lucas Corrêa Mendonça – CONASEMS

Revisão Linguística:
Renata Pires – CONASEMS

Imagens:
Fototeca do CONASEMS
Flickr Ministério da Saúde
Flickr CONASEMS
Envato Elements
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Freepik
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Pexels
https://www.pexels.com/pt-br/

Você não selecionou adequadamente a opção R3 – Vulnerabilidade máxima. Sugerimos que retorne e consulte o Quadro 2: Cálculo da vulnerabilidade familiar para a Escala de Vulnerabilidade Familiar de Coelho e Savassi (EVF-CS).

Saiba que a pontuação de diferentes famílias de forma sistemática permite realizar dois tipos de comparação: num primeiro cenário, pode-se estratificar as famílias do território pela pontuação, estabelecendo uma base de comparação que permite estabelecer prioridades mesmo entre famílias do mesmo estrato. 

Em outro cenário, a classificação pelos estratos de vulnerabilidade (habitual, menor, média e maior) permite o agrupamento de famílias e a tomada de decisões quanto à priorização, à organização de processos de cuidados ou à definição de grupos prioritários, garantindo atendimento equânime e mitigando iniquidades no cuidado dos pacientes adscritos à equipe. 

Se você selecionou a opção R3 – vulnerabilidade máxima –, soube identificar adequadamente a aplicação da EVF-CS para essa família.

Percebe-se que a pontuação de diferentes famílias de forma sistemática permite realizar dois tipos de comparação: num primeiro cenário, pode-se estratificar as famílias do território pela pontuação, estabelecendo uma base de comparação que permite definir prioridades entre famílias do mesmo estrato. 

Em outro cenário, a classificação pelos estratos de vulnerabilidade (habitual, menor, média e maior) permite o agrupamento de famílias e a tomada de decisões quanto à priorização, à organização de processos de cuidados ou à definição de grupos prioritários, garantindo atendimento equânime e mitigando iniquidades no cuidado dos pacientes adscritos à equipe. 

Leitura do quadro

Quadro 2 ─ Cálculo da vulnerabilidade familiar para a Escala de Vulnerabilidade Familiar de Coelho e Savassi (EVF-CS)

ESCORE TOTAL

VULNERABILIDADE FAMILIAR

0 a 4

R0 – Vulnerabilidade habitual

5 e 6

R1 – Vulnerabilidade menor

7 e 8

R2 – Vulnerabilidade média

Acima de 9

R3 – Vulnerabilidade máxima

ESCORE TOTAL

0 a 4

VULNERABILIDADE FAMILIAR

R0 – Vulnerabilidade habitual

ESCORE TOTAL

5 e 6

VULNERABILIDADE FAMILIAR

R1 – Vulnerabilidade menor

ESCORE TOTAL

7 e 8

VULNERABILIDADE FAMILIAR

R2 – Vulnerabilidade média

ESCORE TOTAL

Acima de 9

VULNERABILIDADE FAMILIAR

R3 – Vulnerabilidade máxima

Fonte: Adaptado de Savassi; Lage; Coelho, 2011.

Ao migrar o conceito da escala de “risco” para “vulnerabilidade”, a preocupação é adequar à compreensão de que a vulnerabilidade é mutável, podendo ser modificada a partir da construção de uma ação individual, familiar ou, ainda, comunitária. 

Permanece o conceito de que cada uma dessas sentinelas constitui um marcador individual de riscos; no entanto, o escore calculado a partir da soma dessas sentinelas permite uma quantificação sistematizada da vulnerabilidade familiar. 

É importante ressaltar que todo instrumento de avaliação pode ser reducionista e que nenhuma escala ou escore será capaz de abarcar todas as questões do território. Ainda assim, a escala: 

Quase lá, mas você ainda não teve confirmada a visualização desta aula interativa porque não interagiu com link’s importantes para o seu processo de aprendizagem. Recomece a aula e não esqueça de interagir, pois só assim terá cumprido os requisitos para conclusão da disciplina.

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